Conclusão principal
Os ensaios aleatorizados sobre alívio da dor após aumento mamário com implantes apresentam resultados diversos. Esta revisão distingue as técnicas de bloqueio, os grupos estudados e os períodos de seguimento, incluindo um estudo que reuniu diferentes intervenções.
A dor após aumento mamário pode ter origem em vários tecidos e mecanismos, incluindo a incisão, a dissecção da bolsa e, quando o implante é colocado por baixo do músculo peitoral, o envolvimento muscular. A analgesia multimodal combina métodos como medicamentos não opioides e anestesia regional. O bloqueio dos nervos peitorais é uma opção possível; o seu efeito depende da técnica, do momento em que é realizado e do restante plano anestésico. Os ensaios abaixo não estabelecem um esquema adequado a todas as pessoas.
Estas designações correspondem a diferentes planos de injeção. O PECS I deposita anestésico local entre os músculos peitoral maior e menor e visa sobretudo os nervos peitorais medial e lateral. O PECS II acrescenta um plano mais profundo, entre o peitoral menor e o serrátil anterior, podendo alargar a cobertura aos ramos intercostais laterais e à parede torácica; no ensaio citado, o S-PECS combinou PECS II com um bloqueio do plano do serrátil anterior. Esta anatomia ajuda a compreender por que motivo um bloqueio dirigido à dor relacionada com o músculo pode não abranger todas as fontes de desconforto na pele, no tecido mamário ou na bolsa cirúrgica. A difusão exata e o efeito clínico variam; estas descrições explicam a investigação, não recomendam uma técnica. Os cuidados multimodais coordenam abordagens complementares para procurar tratar diferentes vias da dor e limitar a dependência de uma única classe de medicamentos. [2]
O que encontraram os ensaios sobre aumento mamário
Num ensaio prospetivo, aleatorizado, em dupla ocultação e realizado em dois centros, Aarab e colaboradores analisaram 73 mulheres submetidas a aumento mamário estético com implantes sob anestesia geral: 35 receberam bloqueios PECS I e II antes da incisão e 38 não receberam o bloqueio. Ambos os grupos seguiram analgesia multimodal protocolada, incluindo paracetamol e um anti-inflamatório não esteroide. A pontuação máxima de dor na escala numérica (NRS) de 0 a 10 nas primeiras seis horas após a extubação teve média de 3,9 (DP 2,5) com bloqueio e 5,2 (DP 2,2) sem bloqueio; a diferença comunicada foi de −1,2 pontos (IC 95% −2,3 a −0,1; P=0,036). As pontuações máximas nos dias 1–5 após a cirurgia foram, respetivamente, 2,2 (DP 1,9) e 3,2 (DP 1,7) (P=0,032). Na NRS, a pessoa classifica a dor de 0 (sem dor) a 10 (pior dor); uma diferença média de um ponto entre grupos não prevê a pontuação individual. O intervalo de confiança indica uma gama de efeitos compatíveis com os dados do ensaio; neste caso exclui zero, mas a estimativa continua a ser modesta e provém de um único estudo. [1]
O mesmo ensaio encontrou menor consumo cumulativo de opioides, convertido em equivalentes de morfina oral, no grupo com bloqueio: mediana 0 mg [0–21] contra 21 mg [0–31,5] entre a sexta hora e o primeiro dia (P=0,006), e 0 mg [0–21] contra 21 mg [0–51] entre os dias 1 e 5 (P=0,002). O resumo não define os intervalos entre parênteses retos; por isso, não devem ser designados intervalos de confiança ou intervalos interquartis. Uma mediana inferior no grupo não significa que todas as participantes tenham evitado opioides. [1]
Um ensaio intraindividual, muito mais pequeno e controlado com placebo, comparou os lados da mesma participante e testou apenas PECS I em 14 mulheres submetidas a aumento bilateral com implantes subpeitorais. Cada participante recebeu bupivacaína de um lado e soro fisiológico do outro, servindo de controlo para si própria. O resultado principal foi a dor em repouso 30 minutos depois da chegada à unidade de recobro: NRS média de 3,75 (IC 95% 3,13–4,37) do lado da bupivacaína e 4,00 (3,50–4,49) do lado do soro. Às 24 horas, a média em ambos os lados foi 2,29 (IC 95% 1,56–3,01). Seis participantes referiram menos dor na unidade de recobro do lado ativo, cinco do lado placebo e três não identificaram diferença entre lados. Os autores não encontraram um benefício claro deste método PECS I. Os intervalos de confiança de 95% sobrepõem-se amplamente; mostram a incerteza em torno da média de cada lado, não demonstram equivalência. Em termos práticos, este pequeno ensaio não demonstrou uma redução adicional clara da dor com PECS I. [2]
Outro ensaio aleatorizado, num único centro, incluiu 30 mulheres submetidas a aumento mamário com implantes de silicone. Quinze receberam um bloqueio combinado do plano do serrátil anterior e PECS II (S-PECS) e 15 receberam soro fisiológico; todas foram avaliadas na unidade de recobro e às 4, 6 e 12 horas. Os autores comunicaram pontuações de dor inferiores em todos os momentos registados e afirmaram que o grupo S-PECS tinha uma probabilidade 74% menor de pedir medicação para a dor (P<0,05). O resumo não apresenta contagens de eventos, diferença absoluta ou intervalo de confiança. Uma redução relativa nos pedidos não quantifica a redução da dose de opioides, e a observação terminou às 12 horas. [4]
Um estudo cuja mistura de procedimentos exige cautela
Ciftci e colaboradores distribuíram aleatoriamente 90 pessoas por grupos de PECS I pré-operatório, PECS I pós-operatório e controlo (30 por grupo). Embora o título e o objetivo declarado se refiram ao aumento mamário, a Tabela 1 do texto integral apresenta intervenções de redução e de aumento: respetivamente, 12, 17 e 10 aumentos em cada grupo. Os resultados não são apresentados separadamente por operação. O artigo refere pontuações de dor VAS e consumo de opioides inferiores no grupo pré-operatório, mas esses resultados não podem ser atribuídos apenas às participantes de aumento mamário. O resultado principal foi o consumo de opioides nas primeiras 24 horas; a dor foi avaliada numa escala visual analógica (VAS) de 0 a 10 às 1, 2, 4, 8, 16 e 24 horas. A tabela indica valores de opioides sem unidade, pelo que não é possível interpretá-los como dose. [3]
Porque diferem os resultados
Os ensaios colocam questões relacionadas, mas distintas. O maior estudo direto acrescentou PECS I e II a um protocolo farmacológico padrão e acompanhou resultados durante cinco dias. O estudo intraindividual comparou, na mesma participante, PECS I num lado e soro no lado oposto, numa amostra muito pequena. O ensaio S-PECS testou dois planos de bloqueio em conjunto, mas o resumo apresentou apenas um resultado relativo aos pedidos de medicação. O estudo de Ciftci comparou o momento do bloqueio, reunindo casos de redução e aumento mamário. Não se devem agregar informalmente populações e resultados diferentes numa única estimativa.
Analgesia multimodal significa coordenar mais do que um método de alívio da dor; não significa que todas as pessoas precisem de um bloqueio nervoso nem que seja sempre possível evitar opioides. Estes estudos mediram sobretudo pontuações de dor e consumo de medicamentos a curto prazo. Não demonstram que um bloqueio melhore a função dos braços, antecipe a alta, favoreça a cicatrização, permita regressar ao trabalho, autorize exercício ou indique aptidão para viajar. O ensaio com 14 participantes não comunicou complicações relacionadas com o bloqueio, mas a amostra é demasiado pequena para estabelecer segurança ou excluir danos pouco frequentes. As decisões individuais devem ser tomadas com a equipa de anestesia e cirurgia responsável.
Questões a discutir com a equipa clínica
Pergunte como a bolsa prevista e a incisão se relacionam com o plano de controlo da dor e se os custos previstos e o preço do aumento mamário na Turquia abrangem o mesmo conjunto de cuidados. Confirme separadamente se alojamento, transferes, medicamentos ou seguimento estão incluídos num pacote de aumento mamário; a indicação de que algo está incluído não demonstra adequação clínica.
- Que tecidos e que plano de colocação do implante estão previstos e de que forma podem influenciar a dor esperada?
- Que medicamentos e técnicas regionais fazem parte do plano proposto e que evidência sustenta essa combinação específica?
- Quais são os benefícios esperados, os riscos e as alternativas do bloqueio proposto para esta pessoa?
- Como será avaliada e tratada a dor se o plano inicial não for suficiente, incluindo após a alta?
- Que sintomas de alerta justificam aconselhamento clínico urgente e quem deve a pessoa contactar?
Acesso às fontes e declarações
Estava disponível o texto integral dos estudos de Desroches e Ciftci. Esta revisão utiliza os resumos de Aarab e Sforza, pelo que não acrescenta pormenores que esses resumos não fornecem. Os autores de Desroches indicaram apoio departamental, sem financiamento externo, e declararam que um autor tinha recebido honorários por uma conferência da Allergan em 2017. Ciftci e colaboradores declararam que a investigação não teve financiamento e que não existiam conflitos de interesses. Não foi possível verificar declarações de financiamento ou conflitos nos resumos consultados de Aarab e Sforza. Os registos PubMed/PMC consultados em 18 de outubro de 2026 não apresentavam avisos de correção ou retratação; essa consulta aos registos não prova, por si só, que não exista qualquer aviso.
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Referências
- Aarab Y, Ramin S, Odonnat T, Garnier O, Boissin A, Molinari N, Marin G, Perrigault P-F, Cuvillon P, Chanques G. “Pectoral Nerve Blocks for Breast Augmentation Surgery: A Randomized, Double-blind, Dual-centered Controlled Trial.” Anesthesiology. 2021; 135(3):442–453 (número de 1 de setembro de 2021); publicado em linha a 28 de junho de 2021. DOI: 10.1097/ALN.0000000000003855; PMID: 34195767.
- Desroches J, Roy M, Belliveau M, Leblanc B, Beaulieu P. “PECS I block for postoperative analgesia in patients undergoing breast augmentation surgery: a randomized double-blind placebo-controlled study.” Brazilian Journal of Anesthesiology. 2020; 70(4):333–342 (número de julho–agosto); publicado em linha a 12 de julho de 2020. DOI: 10.1016/j.bjane.2020.07.004; PMID: 32792131; texto integral: PMC9373589.
- Ciftci B, Ekinci M, Celik EC, Karaaslan P, Tukac IC. “Ultrasound-guided pectoral nerve block for pain control after breast augmentation: a randomized clinical study.” Brazilian Journal of Anesthesiology. 2021; 71(1):44–49 (número de janeiro–fevereiro); publicado em linha a 25 de dezembro de 2020. DOI: 10.1016/j.bjane.2020.12.004; PMID: 33712252; texto integral: PMC9373212.
- Sforza M, Saghir R, Saghir N, Husein R, Okhiria R, Okhiria T, Sidhu M, Poojary M. “Assessing the Efficacy of the S-PECS Block in Breast Augmentation Surgery: A Randomized, Double-Blind, Controlled Trial.” Plastic and Reconstructive Surgery. 2024; 153(1):1e–9e (número de janeiro); publicado em linha a 4 de abril de 2023. DOI: 10.1097/PRS.0000000000010492; PMID: 37010475.