A mão em Cascais
Chamo-me Leonor. Vivo em Cascais. Gosto de rir. Durante anos, porém, tapava a boca assim que vinha um riso a sério. Os dentes iam tortos, de cores diferentes, desequilibrados. Nas fotos de perto nunca sorria com eles à vista. Invejava quem ria sem pensar. Sabia que a saída era um design de sorriso, facetas. O medo manteve-me anos longe da cadeira. E se ficarem como azulejos de casa de banho, brancos e enormes? E se limarem os meus até tocos? E se por baixo apodrecer e o hálito cheirar mal para a vida?
Em Portugal os números saíram-me das mãos. Li mulheres portuguesas tratadas fora. Havia sorrisos que finalmente se atreviam. E havia bocas de pastilha elástica, opacas, que gritam «fiz os dentes». À noite escrevia é seguro um design de sorriso na Turquia? Depende da clínica dentária e de quem cola as facetas — não do país. No meio daquilo, Just Clinic Istanbul, em sítios diferentes, não num anúncio solto. Não escrevi no primeiro dia.
A primeira mensagem não foi um preço. O azulejo. O limar selvagem. O medo de cheirar mal. Responderam com materiais e milímetros, não um antes e depois de anúncio. Pela primeira vez em meses senti que alguém levava a sério o que me mantinha acordada.
Quem procura design de sorriso Just Clinic Istanbul procura isto: a viagem, não um catálogo. Conto as três visitas, os provisórios, o segundo em que olhei e não tapei. Nenhuma varinha. Um branco que não grita. O meu dente ficou.
Azulejo e pastilha
O que mais me aterrorizava eram aquelas bocas na rua. Opacas, grossas, um branco que não combina com a pele. O trabalho vê-se a dez metros. Eu queria um sorriso. Não um cartaz.
Disse-o ao dentista na videochamada. Explicou que isso vem de porcelanas de catálogo, grossas, iguais para toda a gente. Iam pôr-me E-max (ou zircónio), finas, que deixam passar a luz como um dente a sério. Combinámos a cor com a pele e o branco do olho. No bordo, mais translúcido. Quando as puseram e eu olhei, não me cegaram. Brilhavam. Não gritavam «aqui estou».
Limar, o dente ficou
Há fotos de tocos, de palitos, de dentes limados até ao osso. Via-me sem esmalte, com uma dor surda para sempre. Arrisco os dentes por uma foto?
Na Just Clinic Istanbul disseram que isso é de outra era, quando a porcelana era grossa e se tinha de esvaziar o dente à volta. Agora, com uma faceta ou E-max fino, só se limpa a face da frente. Três a sete décimos no esmalte. Não me deixaram tocos. O dente ficou. Nalguns não tocaram em nada. O dente é um tesouro, disseram. Conservámo-lo. Houve uma preparação milimétrica para a peça assentar. Não tive aquele inferno de sensibilidade.
Cheiro, gengiva, maçã
Nos fóruns há gente que teve facetas e depois não consegue falar de perto. Restos. Bactérias. Halitose. Aquela ideia manteve-me longe da cadeira.
O dentista disse que isso vai com a margem. Se fica uma fenda entre a peça e a gengiva, entram bichos e cheira. Iam varrer a boca em três dimensões e colar cada faceta como uma peça de puzzle, sem fresta. Luz e química, até o dente e a faceta serem um. Já passaram meses. Nem um pico de gengiva, nem um cheiro estranho.
Tinha lido de linhas pretas na gengiva, meses depois. E de alguém a quem a peça caiu num restaurante. O roxo vem de porcelanas com metal por baixo, ou de peças que apertam a gengiva. O E-max e o zircónio não têm metal. A gengiva não os rejeita. Quanto à maçã: a colagem, bem feita, segura mais do que o dente. Se não partir nozes com eles, não caem. Depois não tive medo de morder. Aquele prato com a faceta em cima não chegou.
O S e os provisórios
Soa a mania. Li-o: dentes demasiado compridos ou grossos, e quando falas escapa um assobio, ou a língua bate. Falo o dia todo. Isso teria sido um desastre.
Prepararam-me. Com os provisórios falámos. Se a língua batesse no S, o laboratório mexia no milímetro. Foi assim. Desde o segundo em que os puseram, nenhuma palavra emperrou. Nenhum assobio. A dicção ficou como estava.
Cerca de seis dias
Tinha lido de horas com a boca aberta, de dias inteiros na cadeira, de uma semana no hotel com o dente a latejar. Para mim foi mais curto. Cerca de seis dias. Três vezes na clínica. Anestesia local. Sem noite de hospital — não é o BBL. As medidas, com uma câmara digital, em minutos. Não me afoguei naquela pasta nojenta de antes. Os restantes dias saí com os provisórios. No último dia puseram os definitivos e levaram-me ao aeroporto. Não comi as férias num canto de clínica.
Tínhamos fechado um número de dentes e um preço. Via-me em Istambul e um «a gengiva também, um implante aqui». Número de dentes e preço fechados. Sem implante surpresa. Sem euro a mais. Não usaram o medo para vender.
De volta a Cascais
O salto de preço acendeu a pergunta. As notícias de fábricas de dentes não ajudaram. Não escolhi a linha mais baixa duma tabela. Pedi as acreditações da Just Clinic Istanbul e as marcas (E-max, zircónio suíço) com papéis. Um design de sorriso Turquia bom é o que se olhou, não o que mais desconta. Trataram-me acima do que paguei.
Nunca tinha estado em Istambul. Ir sozinha deu-me volta ao estômago. Na chegada esperavam com o meu nome. Hotel e clínica: carro, não um táxi. Os testes de sorriso, frase a frase, em português. Quem me seguia — a rapariga da clínica — passava os meus gostos ao dentista ao milímetro. Na cadeira, ouvir «Leonor, dói? paramos um bocadinho?» na minha língua deixou-me cair os ombros.
Perguntei no primeiro dia se podia falar com alguém já tratada. Puseram-me com uma mulher em Portugal, um ano antes. Perguntei se sangravam quando escovava, se pareciam naturais, se podia morder uma maçã. O que ela me contou foi, meses depois, o que eu própria vivi. Aquela hora meteu-me no avião.
Em casa, WhatsApp: ela. Seguiram-me com a goteira noturna, para ver se a usava bem. Não me senti abandonada em Cascais. Saí de lá a tapar o riso com a mão. Consigo rir sem a mão à frente. Isso pesa mais do que todos os anos que passei a fechar a boca.